No próximo domingo (21) é celebrado o Dia Internacional da Síndrome de Down. Ao longo de 41 anos de atuação a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Salvador vem buscando meios para efetivar a inclusão de jovens e crianças com a síndrome e a capoeira desponta como um importante instrumento para esse processo. O trabalho, que vem sendo colocado em prática pela Apae, partiu de uma nova técnica desenvolvida pelo professor de Educação Física da Instituição Maurício Teixeira, que misturou os dois tipos mais conhecidos da dança-luta que tanto encanta a baianos e turistas, a Capoeira de Angola e a Regional.
Esse estilo híbrido é uma metodologia que reúne a técnica da luta e objetivos pedagógicos, favorecendo a participação da pessoa com deficiência intelectual nas rodas. O projeto “Capoeira no jogo inclusivo”, substitui alguns golpes dos dois tipos que, por medida de segurança, não devem ser forçados pelas pessoas com Síndrome de Down, em função das suas limitações. “A capoeira inclusiva requer precauções durante a roda, porque envolve indivíduos com habilidades diferentes. Na roda inclusiva a capoeira deve ser jogada, respeitando-se o tempo e o limite do outro, tendo em vista que não é uma apresentação individual nem uma disputa”, pontua o professor, acrescentando que ainda assim, seus alunos fazem coisas que muita gente sem deficiência não consegue fazer.
Teixeira destaca o desenvolvimento biopsicomotor como um dos ganhos adquiridos com o exercício. Nesse aspecto, segundo ele, a atividade proporciona maior consciência corporal, desenvolve a disciplina, o respeito ao próximo e amplia os hábitos de higiene, a exemplo da limpeza do abadá (roupa da capoeira). “Na Capoeira Inclusiva o objetivo é proporcionar aos alunos uma valorização das manifestações folclóricas, artísticas e lúdicas, buscando elevar a autoestima deles. Também não é exigido que os alunos atinjam o mesmo nível de técnica, mas apenas a beleza dos movimentos e dos seus pares”, avalia.
O trabalho desenvolvido pela Apae Salvador com a Capoeira Inclusiva beneficia mais de 200 pessoas. Desse grupo, 23 alunos e aprendizes compõem a equipe de apresentação do professor Maurício Teixeira, que é também conhecido como Mestre Louro. “É muito gratificante ter a chance de idealizar um projeto que deu certo. Você vê as pessoas jogando capoeira, mesmo com as suas limitações. Hoje eu sou precursor desse trabalho no Brasil”, diz Mestre Louro. Para os alunos, é proporcionada a inclusão social nas relações interpessoais, de grupo e na autoconfiança. “Eles absorvem bem a idéia da capoeira, não a tomam como violência”, complementa.
E é verdade. No momento da formação da roda, a empolgação e a ansiedade são visíveis nos meninos e meninas do grupo de apresentação. São dois atabaques, dois pandeiros, um berimbau e muita disputa por quem vai tocar. Enquanto o mestre não dá início à aula, algumas duplas arriscam os primeiros passos. Entre palmas e cantos, começa a luta. “Eu nasci pra ser vencedor. Eu sou capoeira, sou da Apae Salvador”, cantam animados alunos, mestres e espectadores.
Aos 26 anos, Givaldo Silva Santos diz que pratica capoeira há mais de dez na Instituição. “Ele luta desde os três anos com o Professor Maurício. Já foi pra São Paulo, Santa Catarina, tem muitas medalhas em casa”, diz, orgulhosa, a mãe, Vanda Pereira da Silva. “Tenho os amigos, é bom para o corpo e para a mente”, completa Givaldo.
“É a coisa do sangue do baiano. Capoeira é isso. Eles se concentram, dão tudo de si, põem uma carga enorme na atividade. Além disso, a capoeira faz parte da cultura africana e não podemos esquecer que muitos alunos com Síndrome de Down também são afrodescendentes”, destaca Maurício.
Modalidade traz benefícios diversos
A Capoeira Inclusiva possibilita uma série de benefícios ao quadro físico global da pessoa com Síndrome de Down. De acordo com o médico fisiatra José Henrique Dantas, a conformação física dessas pessoas apresenta características peculiares, que devem ser respeitadas em qualquer atividade física.
Uma delas é a hipotonia muscular, que diminui a resistência dos portadores nos movimentos passivos. A tendência a articulações hipermóveis é outra disfunção, que aumenta o risco de deslocamentos articulares. Além disso, as pessoas com Síndrome de Down possuem alterações na coluna vertebral, como a cifose postural e a hiperlordose, desvios laterais e rotacionais das pernas, pés planos e metatarso varo (pés para dentro), entre outras características.
Para o fisiatra, com a prática da lutadança os alunos conseguem corrigir algumas dessas anomalias, além de obter avanços na coordenação motora. Segundo Dantas, a capoeira reforça a musculatura, reduz as possibilidades de atrofismo, melhora o tônus muscular e contribui para a prevenção de enfermidades comuns, como a luxação atlanto-axial, patologia comum na síndrome.
Dantas ressalta que a atividade ajuda também no controle de peso dos alunos, uma vez que a maioria possui uma tendência a obesidade. “A capoeira contribui para uma melhor performance dos alunos que passam a ter mais equilíbrio e melhor postura”, acrescenta o médico.