Neste 1º de dezembro, Dia Internacional de Luta contra a AIDS, a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Salvador comemora os resultados alcançados com o seu Programa de Triagem Pré-Natal. Adotado há três anos pela instituição, o programa utiliza a técnica de papel filtro no exame de gestantes, para a detecção do vírus HIV I e II e de outras 17 patologias.
Essa nova técnica é semelhante à usada no Programa Neonatal - Teste do Pezinho, que já é desenvolvido pela APAE Salvador com recém nascidos dos 417 municípios baianos e foi regulamentada em 16 de outubro último, através da Portaria no 151, do Ministério da Saúde, para ser aplicada na rede pública e privada no país.
A Apae Salvador foi a pioneira na utilização da técnica em papel filtro no estado da Bahia para HIV e outras doenças que afetam gestantes e são transmissíveis ao feto. Através do Programa de Triagem Pré-Natal, que está em desenvolvimento nos municípios de Santo Antônio de Jesus e Lauro de Freitas gestantes estão sendo rastreadas, diagnosticadas e tratadas.
Quando comparados aos equipamentos e insumos usados nos exames realizados através de testes sorológicos convencionais, como seringas, tubos de ensaio, centrífugas, refrigeradores e freezers, o material utilizado na técnica do papel filtro - apenas lanceta, o papel filtro e o acondicionamento em envelope próprio, certamente oferece grandes vantagens.
A economia em relação ao método tradicional pode ultrapassar 30%. Entretanto, mais que o aspecto financeiro, a nova técnica representa um grande avanço pela cobertura que pode propiciar, uma vez que a coleta é operacionalmente fácil e os filtros podem ser armazenados à temperatura ambiente, ocupam pouco espaço e podem ser enviados pelo correio.
Isso significa que o exame pode ser feito em gestantes de municípios distantes, desprovidos de laboratório de análises clínicas e de local apropriado para a realização da coleta de sangue pelo método convencional. E o resultado é enviado em um prazo mais curto, permitindo as abordagens terapêuticas de forma tempestiva e eficaz.
A coleta de sangue em papel filtro já vem sendo realizada, desde o início dos anos 90, em procedimentos epidemiológicos em alguns países e o método é considerado pelos especialistas como grande opção em nações em desenvolvimento e em regiões remotas nas quais não existe o suporte laboratorial adequado.
Ministério reconhece vantagens da técnica
O Ministério da Saúde reconhece as amplas possibilidades do uso de papel filtro para diagnóstico de HIV. Nos estudos realizados para atualizar as normas de realização de testes diagnósticos de HIV, o Ministério já informou que entre as mudanças estará a adoção da coleta de sangue seco, que permitirá o armazenamento do material por até 12 semanas sem refrigeração.
A medida, segundo o Ministério, visa facilitar o diagnóstico de Aids, principalmente nas regiões mais distantes do país. Segundo a coordenadora da área de doenças sexualmente transmissíveis e Aids do Ministério, Mariângela Simão, a preservação do sangue só será possível, porque a coleta será feita com um papel filtro especial. Ela comparou a técnica com a que é utilizada para o Teste do Pezinho e enumerou as vantagens da técnica: coleta por punção no dedo e absorção da gota de sangue em papel filtro que, após secagem, é postado, devidamente acondicionado, pelo serviço de saúde para o local onde o material será analisado.
Essas novas medidas têm a finalidade de enfrentar as estimativas, segundo as quais, 630 mil brasileiros estariam infectados pelo vírus HIV e que, desse total, 255 mil não teriam feito o teste, ignorando, portanto, a sua condição de portadores do vírus.
Além dos avanços significativos na prevenção, diagnóstico e tratamento da doença, proporcionados pela adoção da nova técnica, o Ministério estuda a implementação de um sistema organizado de rastreamento dos indivíduos com exames positivos.
Validação foi feita em 2004
Antes de adotar o seu Programa de Triagem Pré-Natal, o Centro de Diagnóstico e Pesquisa (Cedip) da Apae Salvador fez validação para o diagnóstico do vírus HIV I e II. Em parceria com a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (SESAB), a Instituição realizou uma pesquisa com 1.483 pacientes que procuraram espontaneamente o atendimento pré-natal em três maternidades públicas - Albert Sabin, Tsylla Balbino, Iperba - ou atendimento especializado no Centro de Referência em DST/Aids de Salvador, para realizar o teste do HIV.
Essas pacientes foram submetidas à realização do exame dentro dos padrões tradicionais e também através da técnica com papel filtro. O resultado apontou uma coincidência de 99,86% entre os dois métodos. A pesquisa foi realizada entre junho e novembro de 2006 e contou também com 25 amostras de sangue de pacientes sabidamente soropositivos.
A positividade do teste entre os 1.483 pacientes foi de 0,89%, ou seja, 13 exames apontaram pacientes portadores do HIV. Esses 13 testes foram confirmados tanto pelo método do papel filtro como no tradicional ou Western Blot, conforme o protocolo estabelecido pelo Ministério da Saúde, obtendo-se 100% de coincidência entre as duas técnicas. Do mesmo modo, os 25 testes realizados em papel filtro com os pacientes já diagnosticados também apontaram confiabilidade do exame no papel filtro.