A Tarde
16/12/2007
Unidos pelo sangue
Quem nunca se apaixonou ou conheceu alguém que já tenha se encantado por um primo(a) que atire a primeira pedra. Apesar de ter sido algo muito comum no passado, os casamentos consangüíneos (entre parentes) são vistos com certo receio nos dias atuais. E não só por uma questão de crenças. Para além da religiosidade, há um outro fato que causa receio: a probabilidade de vir a ter um filho com problemas, já que neste tipo de relacionamento há maior risco de gerar crianças com alguma doença hereditária.
De acordo com a bióloga e professora titular de genética da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Lília Moreira, quanto mais próximo o grau de parentesco, maior o risco. “A relação genética entre dois consangüíneos é medida em graus, que indicam o número de gerações que os separam.
Se o primo ou o parente em questão for de primeiro grau, portanto, o risco é maior”, explica a geneticista.
A professora da Ufba alerta que todos os casais, aparentados ou não, apresentam um certo risco de ter filhos com algum tipo de deficiência.
“O casamento consangüíneo apenas aumenta a possibilidade normal de todo união”, esclarece Lília Moreira.
O risco de um casal não consangüíneo ter filhos com deficiência é de 3%. No casamento entre parentes, esse risco é de 6% a mais, ou seja, 9%, e se o casal já tiver um filho afetado, as chances de uma segunda criança ter malformação ou alguma doença genética é de 25%.
De acordo com a geneticista da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) Salvador, Helena Pimentel, a causa das doenças está em um defeito nos genes herdados dos pais. Entre os possíveis problemas, os distúrbios da fala e audição estão entre os mais comuns. “Na Bahia, o índice de anemia falciforme também é alto, já que é mais comum na população negra”, diz.
Mãe de dois filhos, a auxiliar administrativa da Ufba Tereza Barbosa, 45 anos, não imaginava que seus filhos pudessem ter algum tipo de problema em função de ter casado com um primo de segundo grau. “Não me preocupava e nem sequer lembrava desta possibilidade. Vivia apenas o momento da empolgação com a chegada da criança”, conta.
Tereza teve seu primeiro filho, Felipe, hoje com 17 anos, e só descobriu que ele não escutava quando o garoto completou 3 anos. “Ele não falava e era bastante inquieto, daí começamos a nos preocupar. Levamos a um otorrinolaringologista e descobrimos que ele tinha perda auditiva de 90%. Sofri bastante e me negava a acreditar”, diz a auxiliar administrativa, atualmente divorciada.
Justamente no período em que descobriu o distúrbio auditivo do filho, Tereza engravidou pela segunda vez. “Antes de minha filha Maria Tereza nascer, nem imaginava que a história pudesse se repetir, mas aos oito meses percebi que ela se comportava como Felipe, bastante inquieta, tentava falar abrindo demais a boca e fazendo barulho. Outro susto, outra dor ainda mais forte”, conta.
Maria Tereza nasceu com o mesmo problema do irmão, mas com perda auditiva menor, de 60%. Apesar das dificuldades iniciais, o casal de irmãos se comunica, estuda, brinca e freqüenta festas. “Tento fazer com que eles tenham uma vida normal, como os outros.
A discriminação é inevitável, mas não quero ninguém tratando meus filhos como coitadinhos.
Eles são inteligentes, capazes e busco orientá-los da melhor forma para que estejam preparados para enfrentar os problemas".