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16/12/2007 - A Tarde - Risco existe, mas não afeta todos os casais
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A Tarde

16/12/2007

Risco existe, mas não afeta todos os casais

 

Nem todos os casais aparentados têm filhos com malformações ou algum tipo de doença genética.

Primos carnais (de primeiro grau) casados há 43 anos, TerezaMoura Pires, 75 anos, e Francisco Miranda Moura, 73 anos, têm um casal de filhos saudáveis.

“Graças a Deus, nem nossos filhos nem os netos tiveram nenhum tipo de problema”, diz o militar aposentado Francisco Moura.

Na família, casar com primos era uma tradição. “Temos mais cinco casos de primos casados na família e ninguém teve filho com deficiência.

Somos felizardos”, comenta.

A médica geneticista da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) Salvador, Helena Pimentel, ressalta que, ao contrário do que as pessoas pensam, o desenvolvimento de doenças cromossômicas (como a síndrome de down) e as doenças gênicas dominantes (como o nanismo, doença genética que provoca alterações ósseas) nada tem a ver com parentesco.

“O risco é igual para todo mundo. Pode acontecer com qualquer um, parentes ou não”, informa a geneticista da Apae.

Helena explica que o risco é maior no caso das doenças gênicas recessivas, provenientes de genes defeituosos herdados dos pais. Um ser humano, explica a geneticista, é formada por cerca de 30 mil pares de genes, 15 mil genes presentes no espermatozóide e 15 mil genes presentes no óvulo.

Cada característica do organismo, tanto a sua aparência como o seu funcionamento interno, o metabolismo, é determinada sempre por um par de genes, um herdado do pai e outro da mãe. A informação para que haja a função normal do organismo está contida, justamente, nos genes.

“Cada ser humano carrega cerca de 10 genes alterados e são necessários dois genes com defeito, um do pai e um da mãe para que a pessoa tenha a doença”, explica. É necessário, portanto, que o pai e a mãe carreguem o mesmo gene com defeito. “É probabilidade, mas dizemos sempre que probabilidade não tem memória. É como jogar a moeda para cima, para ver se vai sair cara ou coroa. Se saiu cara a primeira vez, não significa que vai sair cara de novo", diz Helena.

ACONSELHAMENTO – A orientação dos médicos para as pessoas que são casadas ou pretendem casar com primos é procurar um geneticista para um aconselhamento genético. Trata-se de uma consulta para pessoas que estão preocupadas com a ocorrência ou possibilidade de uma doença genética em sua família.

Nos serviços de genética do Hospital das Clínicas, do Hospital Roberto Santos, do Centro Estadual de Prevenção e Reabilitação de Deficiências (Cepred) e no Instituto de Biologia da Ufba, o aconselhamento é feito gratuitamente.

“Imagine que um casal vai fazer porque tem uma doença na família ou que já teve um filho ou uma irmã com problema. Na consulta, ele terá informações sobre as características da condição, a probabilidade ou risco de desenvolvê-la ou transmiti-la à próxima geração”, diz Helena Pimentel.

Questionado se teve medo de ter um filho com problemas, o aposentado Moura afirma que não.

“Naquele tempo (1964) não havia essa preocupação”, diz. De acordo com o professor de história da Ufba, João José Reis, os casamentos entre parentes eram comuns.

“A união endogâmica (entre pessoas da mesma família) era muito comum no século XIX, quando se preferia a realização de enlaces consangüíneos, para evitar a dispersão da riqueza, do patrimônio.

Eram famílias extensas e patriarcais”, explica.

Segundo ele, com o passar do século XIX, houve uma nova ideologia do conceito de família. “Passamos a ter a discriminação em relação a esses casos, já que havia situações de tios com sobrinhas, irmãos com irmãs, relações incestuosas”, diz José Reis.

O historiador conta que, em 1806, houve um casamento de um tio com uma sobrinha de 13 anos de idade, em que ela protestou, afirmando que o marido não cumpria com seus deveres conjugais.

“Ele, na realidade, preferia dormir com as escravas. Certa vez, ela brigou com uma delas e exigiu que o marido a punisse, mas ele já a havia libertado”, conta.

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